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A Brasília que temos hoje
08.24.06 (12:46 pm)   [edit]

Essa foto tem algo a ver com o fato que ocorreu a alguns metros dali, no sábado à noite. Pedro Davison, o Pedrinho, ciclista, recém-formado em Biologia pela UnB, morreu atropelado quando voltava pra casa, pedalando, nessa faixa amarela do Eixão. Eu não o conhecia pessoalmente, mas era uma pessoa próxima, por ser amigo de vários amigos meus. Próxima porque eu também ando de bicicleta. Próxima porque é da Asa Sul, da UnB, do contexto. Tô dizendo isso tudo, porque me faz pensar sobre como quando é alguém próximo que se vai, sentimos muito mais do que os outros tantos que vão por outros motivos, piores ou não.
Vi hoje na capa do Correio Braziliense, ainda não sabia quem era, mas já de cara senti pelo fato: olhei rapidamente e vi que foi na altura da 113 sul que ele foi atropelado. E pensei: podia ter sido eu. Notem bem que nessa minha foto, de julho de 2005, há as tartarugas na faixa amarela. O Eixão, hoje, está sem essas tartarugas, tem só a faixa amarela central. As últimas vezes que atravessei o Eixão, o que é um hábito, me senti muito inseguro. Como é hábito, uma coisa quase automática atravessar o Eixão a pé ou pedalando, não lembrava que está sem as tartarugas. Daí, toda vez que eu chegava à faixa amarela no meio, e me lembrava que as tartarugas não estavam ali, vinha esse medo forte, e eu rezava só pra que eu pudesse logo chegar ao outro lado. Isso já tem algumas semanas que está assim, e antes estava pior: sem faixa nenhuma, e o medo e perigo então estavam realmente bem maiores. Pelo que li na matéria do Leandro Bisa, no Correio Braziliense, Pedro pegou a faixa do meio porque o acostamento foi diminuído com as reformas. De acordo com o DER, aquela faixa do meio é proibida para pedestres e ciclistas. Agora, vejamos as discrepâncias entre o que é proibido ou não, o que é lei e o que é bom senso, e a realidade que as pessoas vivem. De acordo com o Código de Trânsito, o ciclista deve usar o acostamento da via, e no sentido dos veículos. Segurança pra isso, cadê??? Muita gente sempre usou, e usa essa faixa do meio do eixão, que com as tartarugas se tornava um pouco mais segura. Para as várias pessoas que atravessam o Eixão todo dia, há as passarelas subterrâneas, a cada duas quadras. Como estão essas passarelas? Em péssimo estado. Em dezembro do ano passado, eu fiz uma matéria pro JB (com ajuda da Cris Madeira) sobre as passarelas da Asa Norte, que estavam todas sem iluminação alguma (à exceção de apenas uma, que ainda tinha um pouco de iluminação precária), e mesmo assim, várias pessoas atravessavam pelas passarelas totalmente escuras, com todos os riscos que isso implica, por medo de pegar o Eixão no horário de maior tráfego. À época, a administraçã ;o regional de Brasília falou que só poderia cuidar da iluminação das passarelas depois do reveillón, já que os funcionários estavam ocupados com os preparativos da festa da prainha do lago, eu acho. Enfim, até hoje, quando passo por lá, estão todas passarelas totalmente escuras, e no Eixão Norte, também em reforma como o Sul, até a última vez que vi, estava sem faixa nenhuma. Voltando ao DER, não é certo usar a faixa central do Eixão para pedalar ou andar, ou atravessar, mas também deve haver sinalização quando uma via está em obras, e também essa via só pode ser liberada depois de finalizada a obra. Lei e bom-senso parecem não se entender muito bem.
Há poucos dias, lá pelas 7 da noite, fui descer da 109 sul pra 209, pela passarela. Havia 2 PMs na entrada/saída da passarela, e perguntei pra eles se não era melhor que ficassem lá embaixo, e eles falaram que era a determinaçaõ ; que ficassem ali mesmo, do lado de fora. E também, ficam apenas nos horários de maior movimento. Fiquei só um pouco mais seguro quando os vi por lá, porque se eu passo por lá num horário de pouco movimento, é muito mais propício para alguém me apontar uma arma e me assaltar. Muito mais propício para algum maníaco estuprar alguma menina desafortunada. Quem já andou por essas passarelas, sabe que depois das escadas que você desce, há uma espécie de curva, e depois vc segue em linha reta até chegar à outra "curva", quando você vê as escadas para subir. Se alguém te pega depois dessas curvas, onde os PMs não vêem nada, pois estão acima da escada, azar o seu. Em vez de ficarem um em cada "curva", ficam lá para talvez escutarem algo. Assim como outro dia li uma matéria falando que colocarão câmeras nas passarelas. Ótimo, aí depois que vc foi assaltado ou estuprada, eles podem tentar achar o bandido. Em Brasília, se vc não tem carro e precisa atravessar o Eixão, tem que escolher: "corro risco de morrer atropelado(a) ou corro risco de ser assaltado(a), estuprado(a) no subsolo?". Voltando ao caso do Pedro. É muito amarga a ironia de que, no fim de semana que aconteceu o Meio IronMan Brasília, um ciclista seja morto por um babaca que nem sequer prestou socorro. Fugiu, foi pego, pagou fiança e responde em liberdade ao processo. Fatalidades acontecem, mas isso não foi apenas fatalidade.

Além da culpa do filho da puta que atropelou, arrastou Pedro por 200 metros e fugiu, há a culpa do Estado, que adora duplicar uma via, sempre dando tudo para os carros, e nunca faz uma ciclovia. Duplicaram a L4 Norte, pensaram em ciclovia? Não. Duplicaram a L3 Norte, na UnB. Fizeram ciclovia? Não. E o problema do trânsito (dos carros) vai melhorar? Talvez por alguns anos, mas já já vão ter que duplicar tudo de novo, já que não entendem que se não tratarem de cuidar do transporte público e criar alternativas de transportes, como ciclovias, essa merda vai continuar pra sempre. Daqui a pouco, nas comerciais das quadras como a minha (210 Sul), que estão sempre engarrafadas, vão querer duplicar também. Ou tirar as calçadas, que os restaurantes babacas já tiram. Por essas e outras, às vezes falo que Brasília já era. Quando vem uma propaganda governamental exaltar que temos a melhor qualidade de vida do país, dá vontade de quebrar tudo. Qualidade de vida pra quem?? Para aqueles da ilha da fantasia, que não precisam pegar um ônibus, que não têm que caminhar, que não usam cadeira de rodas, que não pedalam correndo todo tipo de risco. CIDADE NEGLIGENTE. CIDADE DELINQÜENTE. CIDADE EXCLUSIVA E EXCLUDENTE!!

Isso é desabafo pela tristeza e raiva que senti quando vi a capa do jornal de hoje, e depois fiquei sabendo quem era, tudo o que tinha pra viver, pra contar, aprender e ensinar. Repito que não o conheci pessoalmente, mas conheço a Lelê, namorada do Pedro.
Lelê, tô aí na disposição pra ajudar no que puder ser feito pra que isso não seja esquecido, e no que isso puder ajudar nossa cidade. Esse desabafo é só um começo, não podemos deixar isso ser levado pelo vento e esquecermos tudo. De acordo com a matéria do Correio, até junho desse ano, já foram 34 acidentes fatais envolvendo bicicletas. Podia ter sido eu. Foi o Pedro. Podia ser qualquer um, podia ser um pedestre, um cadeirante, um velho, uma criança, ou qualquer um que precisasse atravessar ou usar o Eixão. Brasília tem que deixar de ser a cidade dos automóveis. Enquanto não se respeitar o ser humano de todas as maneiras possíveis, essa cidade não pode, NÃO PODE sequer pensar em falar de QUALIDADE DE VIDA. QUALIDADE DE VIDA TEM DE SER PARA TODOS. PARA TODOS.

Pedro, vá em paz.
Lelê, se vc um dia ler isso aqui, saiba que estou à sua disposição. O que eu puder fazer para ajudar, farei.
Um beijo
E boa sorte para todos nós.
PAZ